Na verdade, foi um verdadeiro drama a expectativa para voltar para casa. Horas e horas de conversa com os amigos tentando imaginar tudo o que eu iria sentir e o que iria fazer quando chegasse ao Brasil. No fim, foi tudo bem normal e já faz 20 dias que estou de férias. Achei que iria ficar emocionada quando o avião pousasse, que iria estranhar os carros querendo passar em cima da gente, que iria achar diferente as pessoas falando em português. Mas, não rolou nada disso. Cheguei no aeroporto tão cansada que só queria que a minha mala aparecesse logo na esteira. Nos primeiros dias, não senti nem mal-estar por causa da diferença de cinco horas de fuso horário. Ainda não sei se isso é bom ou ruim, mas estou só me sentindo de férias. Embarco de novo daqui uns meses e esses dias tão estranhos parecem mais uma pausa para o café no meio do expediente.
sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
É hora de ir embora
Estou em Bergen, Noruega. Faltam oito dias para eu pegar o avião de volta pro Brasil. Geralmente, quando eu termino algo, sempre fecho pra balanço, contabilizo o lucro e as perdas, faço uma avaliação geral, verifico as estratégias que funcionaram e as que deram errado pra fazer um planejamento para a próxima empreitada. Dessa vez, está sendo diferente. O meu contrato de oito meses a bordo está terminando, mas é humanamente impossível fazer um balanço geral. Foram tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, em todas as esferas da minha vida, com tanta intensidade que simplesmente não dá pra parar e pensar em tudo de uma só vez. Minha única certeza é que eu não só mudei um pouco nesses meses, eu realmente me tornei outra pessoa. Em todos os aspectos. O mais impressionante é que foi assim até o final do contrato. No último mês, conheci uma pessoa muito especial que me deu uma direção a seguir. Eu nunca mais vou ver essa pessoa, mas conhecê-la me devolveu a esperança de que é possível ter alguém com que compartilhar. Eu não acreditava mais que isso fosse possível, achava que a solidão era o meu destino, no fim das contas. Agora eu sei que existe alguém esperando por mim em algum lugar do mundo. Essa pessoa que conheci passou na minha vida somente por dois cruzeiros, mas ela me ensinou muito e me ajudou a encontrar uma direção. Volto pro Brasil, pra minha família, pra minha vida, muito melhor do que quando parti. Com o coração aberto e a cabeça pensando em coisas boas. A vida é feita de ciclos. Hoje, essa pessoa especial está indo embora da minha vida. É um ciclo que se fecha e outro que está apenas começando. Vida Nova. Finalmente.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Mudança de Rota

Dentes-de-leão floridos. Barulho de cortador de grama. Cheiro de mato cortado. Céu nublado. Vento frio soprando bem de leve. Sino da igreja badalando. Estou sentada no banco da praça, no alto de uma colina, entre mim e um fjord há um lago onde o navio está ancorado. Islândia. A cidade é pequena e, apesar dos carros passando, não tem barulho de trânsito. Depois de seis meses embarcada, eu estava precisando muito disso. Estar sozinha, sem nenhum crew ou passageiro por perto, respirar um pouco de ar de verdade, sem ar-condicionado. Principalmente, estar parada simplesmente vendo o tempo passar. A vida no navio é frenética, me sinto como se estivesse dentro de um liquidificador ligado. Em todos os sentidos. Sair do navio em grupo é uma paranóia de correr pra conhecer tudo, correr pra comprar souvenir, correr pra achar uma internet, correr pra comer alguma coisa diferente. Faz seis meses que só faço isso e, definitivamente, cansei. Agora faltam exatamente dois meses pra eu ir pra casa e decidi mudar de vida. Vou cuidar da minha saúde que não anda nada boa, vou fumar menos, gastar menos dinheiro, cuidar da cabeça. Tem também as coisas do coração que, por sinal, passou o contrato inteiro fechado à sete chaves, sem abrir pra ninguém entrar. Toda vez que alguém tentou chegar mais perto, eu me afastei. Algumas vezes, conscientemente; às vezes, mentindo pra mim mesma. É um pouco triste estar sozinha, mas eu preferi fazer assim e me proteger. Aqui no navio, quase tudo é ilusão e eu não quis sofrer por pessoas que eu nunca vou saber quem são de verdade. Hoje, acordei cedo e, ao invés de ir pro lugar turístico, fui dar uma volta a pé pela cidade. Andei pelas ruas olhando os fjords lá longe, com o topo todo manchado de branco. Senti realmente que estou muito longe de casa, não só do Brasil, mas longe de tudo que é meu, longe da minha vida, longe de mim mesma. Me senti bem sozinha e me veio na cabeça uma pergunta: “Por que eu tive que vir tão longe?” Na verdade, estou fugindo do meu passado, das minhas frustrações e dos meus medos. E vim parar aqui, perto do pólo norte, em busca de algum sentido pra continuar. Ainda não encontrei, mas sei que fui bem longe e agora é hora de voltar. É hora de pensar o que eu quero fazer da minha vida, pensar nos meus valores, pensar no que é realmente importante. A distância me fez perceber o quanto eu preciso da minha família, o quanto eu sinto falta dos amigos de verdade. Aqui na Islândia eu chego à conclusão de que apesar de sempre tentar não precisar de ninguém, eu não quero mais ser sozinha. Eu vou voltar pro Brasil e pela primeira vez vou admitir pra mim mesma que não gosto da solidão, que preciso do carinho e do amor de todo mundo que gosta de mim. Passei a vida inteira me protegendo, desconfiando de boas intenções, afastando as pessoas, duvidando que o amor é possivel. Sou uma pessoa muito forte, passo por cima de qualquer obstáculo pra conseguir o que quero, aguento a pressão. Mas, tudo tem o seu preço e isso já não está valendo a pena. Ser forte e ser livre é muito solitário. A partir de agora, já comecei a fazer o caminho de volta pra casa.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Estar na Rússia foi fantástico! Eu me lembrei de quando era criança e estava rolando a guerra fria, de todas as imagens que eu tinha na cabeça, dos soldados, do comunismo, da bomba atômica. Naquela época, eu era suscetível à propaganda americana e fazia torcida para os EUA. Foi surpreendente estar lá, vendo que é um país, um povo, uma língua, um jeito de vestir. Não são só tanques e exércitos. Apesar de que ainda dá pra ver relíquias do comunismo, como os grandes prédios residenciais de concreto cinza que ficam perto do porto. Dá pra notar que os prédios não tem significação arquitetônica nenhuma, têm adornos e tudo, mas não é expressão de nada. São só prédios. Achei uma cidade bem triste, senti algo um tanto carregado, as pessoas são sérias e ríspidas, têm um olhar vazio. A não ser o vendedor de souvenirs da praça que falou comigo e em português. Talvez, seja só impressão minha, afinal foram muito fortes as impressões que tive da Rússia quando era criança. Fico imaginando tudo o que rolou por aquelas ruas por onde passei quando o comunismo acabou. O povo enfrentou uma grande mudança e mudar sempre é difícil. O problema desse turismo de tripulante de navio é que eu passo pelas cidades por algumas horas, mas não dá pra conhecer, fico só em lugares turísticos que nada mais são do que flores de plástico dentro de um vaso, ao invés de ser um jardim. Bonitos e artificiais. Tive uma grande curiosidade de saber mais, de conversar com os russos pra saber o lado deles da história. Essa grande história que foi o comunismo russo. Assunto grandioso demais pra eu conseguir dividir com alguém aqui dentro desse aquário em formato de navio, onde a revista Veja é chata porque só tem notícia.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Mar Báltico
Quando eu penso que já me surpreendi bastante, ainda tem mais!!!
Próximo Itinerário: Islândia!!!
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Céu Astral
Fiz aniversário em Cádiz, na Espanha! O inferno astral acabou mesmo e as coisas automaticamente melhoraram. O navio partiu para a temporada no norte da europa e estou fazendo a travessia Itália-Alemanha. Agora o período de indefinições acabou e sei que não vou ser transferida, continuo no mesmo navio até o julho. Recuperei meu foco e voltei a pensar que muita coisa boa aconteceu e melhores ainda virão. Coisas como Inglaterra, Rússia e Islândia que logo vou conhecer.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Inferno
Todo ano é a mesma coisa, o maldito inferno astral antes do meu aniversário. Depois de um janeiro doido, um fevereiro carnavalesco e um março efervescente, veio abril com as coisas meio andando pra trás, algumas decepções e nada de novo acontecendo. Inferno Astral é foda. Em abril, entrei em crise e fiz aquela pergunta básica: “O que é que eu estou fazendo aqui?”. Perdi o foco, fiquei confusa sem saber pra onde estou indo e sem um objetivo claro. Daqui três meses eu volto pro Brasil e ainda não sei o que vou fazer. O mais provável é que eu tire férias de dois meses e volte pro segundo contrato. Mas, isso não é muito certo, ainda não consigo me imaginar chegando em casa, quanto mais embarcando de novo. Esses dias, surtei. Tive muita vontade de me enfiar embaixo do edredon e chorar. Mas, não chorei. Tomara que o meu aniversário chegue logo pra esse inferno astral acabar e eu poder respirar um pouco. Perdi o foco, mas não posso perder a fé.
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